Quem ama a Deus, não deve temer a Morte – Meditação Alternativa

Quem ama a Deus, não deve temer a Morte

Moriatur anima mea morte iustorum, et fiant novissima mea horum similia — “Morra a minha alma de morte dos justos, e sejam os meus novíssimos semelhantes aos deles” (Nm 23, 10)

Sumário. É certo que, sem uma revelação especial, ninguém pode ter a certeza infalível acerca da sua salvação; mas pode ter dela uma certeza moral aquele que se deu deveras a Deus, detesta os pecados cometidos, persevera na vida devota, e está disposto a antes morrer do que perder a graça divina; e, sobretudo, aquele que tem um desejo ardente de amar a Jesus Cristo, deseja vê-lo amado dos outros, e sente tristeza de o ver ofendido. Longe de aborrecer a morte, deve amá-la, porque o porá em estado de ver Deus face a face, e de gozá-lo por toda a eternidade.

I. Quem ama a Deus, tem a certeza de estar na graça divina, e, morrendo assim, tem a certeza de ir gozá-lo para sempre no Reino bem-aventurado; deverá então temer a morte? Davi, é verdade, disse:

“Senhor, não entres em juízo com o teu servo, porque não será justificado na tua presença todo o vivente” (1)

Mas isto quer dizer que ninguém deve presumir salvar-se pelos seus próprios merecimentos, e não que deva temer a morte aquele que detesta as suas faltas e confia nos merecimentos de Jesus Cristo, que veio à terra para salvar os pecadores e por estes derramou todo o seu sangue. O sangue de Jesus Cristo, diz o Apóstolo, fala melhor em favor dos pecadores, do que o sangue de Abel falava contra Caim, que o matou (2).

Verdade é que, sem uma revelação divina, ninguém pode ter a certeza infalível da sua salvação; mas pode ter uma certeza moral aquele que se deu deveras a Deus, e detesta os pecados cometidos; aquele que, depois do pecado, persevera muito tempo na vida de virtude, e está disposto a antes morrer, do que perder a amizade divina: e sobretudo aquele que deseja ardentemente amar a Jesus Cristo, e vê-lo amado também pelos outros, e sente tristeza de o ver ofendido. E esta certeza baseia-se nas promessas divinas.

Em vários pontos da Escritura Sagrada Deus protesta que não quer a morte do pecador, senão que se converta e viva (3); afirma-o com juramento, e queixa-se daqueles pecadores obstinados que, para não deixarem o pecado, querem perder-se:

Et quare moriemini, domus Israel (4) — “Por que morrereis, ó casa de Israel?”

Àqueles, porém, que se arrependem do mal que fizeram, o Senhor promete esquecer todos os seus pecados (5). Numa palavra, estejamos seguros, porque ninguém pôs em Deus a sua confiança e ficou confundido: Nullus speravit in Domino, et confusus est (6). Sendo assim, como poderemos aborrecer a morte?

II. Mas como é que alguns santos, depois de se terem dado inteiramente a Deus, e levado uma vida mortificada e desprendida de todo o afeto aos bens terrenos, se assustaram em presença da morte, ao pensarem que tinham de comparecer perante o Juiz Jesus Cristo? Respondo que são poucos os santos que na hora da morte experimentaram tais temores; Deus assim os quis purificar de qualquer resto do pecado, antes de entrarem na eternidade bem-aventurada. Em regra geral, todos os santos morreram em paz profunda, e com grande desejo de morrer a fim de irem ver a Deus. Pelo mais, falando do temor acerca da salvação, eis aqui a diferença entre os pecadores e os santos: os pecadores passam do temor ao desespero; os santos passam do temor à confiança e assim morrem em paz.

Portanto, todo aquele que possui indícios de estar na graça de Deus, deve desejar a morte, repetindo a oração que nos foi ensinada por Jesus Cristo: Venha a nós o vosso Reino. Quando vier a morte, deve abraçá-la com alegria, tanto para se livrar do pecado, deixando a terra na qual se não vive sem defeitos; como para ir ver a Deus face a face e amá-lo com todas as forças no Reino do amor. Saibamos que o que oferece a sua morte a Deus, faz o ato mais perfeito de amor de Deus; porquanto, aceitando de boa vontade a morte que agradar a Deus, e no tempo e do modo que Deus quer, torna-se semelhante aos santos mártires.

Ó meu amado Jesus, quando vierdes para me julgar, não me condeneis ao inferno. No inferno não Vos poderia amar, e teria de Vos odiar sempre; e como poderia odiar-Vos se sois tão amável e me haveis amado tanto? Pelos meus pecados, sou indigno desta graça; mas se eu a não mereço, Vós a merecestes para mim, pelo sangue que no meio de tantas dores por mim derramastes sobre a cruz. Ó meu Juiz, enviai-me todo e qualquer castigo, mas não me priveis do poder de Vos amar. Ó Mãe de Deus, vede o risco que corro de ser condenado a não mais poder amar o vosso Filho, digno de um amor infinito; socorrei-me, tende piedade de mim.

Referências: (1) Sl 142, 2. (2) Hb 12, 24. (3) Ez 18, 23; Ez 33, 11; 2 Pd 3, 9. (4) Ez 33, 11. (5) Ez 18, 21. (6) Eclo 2, 11.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Duodécima semana depois de Pentecostes até ao fim do ano Eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 435-438)

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1. Preparação

Na preparação fazem-se três atos:

1º Ato de Fé na presença de Deus, dizendo:

Meu Deus, eu creio que estais aqui presente e Vos adoro com todo o meu afeto

2º Ato de Humildade, por um breve ato de contrição:

Senhor, nesta hora deveria eu estar no inferno por causa dos meus pecados; de todo o coração arrependo de Vos ter ofendido, ó Bondade infinita.

3º Ato de Petição de luzes:

Meu Deus, pelo amor de Jesus e Maria, esclarecei-me nesta meditação, para que tire proveito dela.

Depois:

  • uma Ave Maria à Santíssima Virgem, afim de que nos obtenha esta luz;
  • na mesma intenção um Glória ao Pai a São José, ao Anjo da Guarda e ao nosso Santo Protetor.


Estes atos devem ser feitos com atenção, mas brevemente, depois do que se fará a Meditação.

2. Meditação

Para a Meditação sirvamo-nos sempre de um livro, ao menos no começo, parando nas passagens que mais impressão nos fazem. São Francisco de Sales diz que devemos imitar as abelhas, que se demoram numa flor enquanto acham mel, e voam depois para outra.

Note-se além disto que são três os frutos da meditação: afetos, súplicas e resoluções; nisto é que consiste o proveito da oração mental. Assim, depois de haverdes meditado numa verdade eterna, e Deus ter falado ao vosso coração, é mister que faleis a Deus:

1º Pelos Afetos

Isto é, pelos atos de fé, agradecimento, adoração, louvor, humildade, e sobretudo de amor e de contrição, que é também ato de amor. O amor é como que uma corrente de ouro que une a alma a Deus. Conforme Santo Tomás, todo o ato de amor nos merece mais um grau de glória eterna. Eis aqui exemplos de atos de amor:

Meu Deus, eu Vos amo sobre todas as coisas. Eu Vos amo de todo o meu coração. Fazei-me saber o que é de vosso agrado; quero fazer em tudo a vossa vontade. Regozijo-me por serdes infinitamente feliz.

Para o ato de contrição basta dizer:

Bondade infinita, pesa-me de Vos ter ofendido.

2º Pelas Súplicas

Pedindo a Deus luzes, a humildade ou qualquer outra virtude, uma boa morte, a salvação eterna; mas principalmente o dom do seu santo amor e a santa perseverança, porque, no dizer de São Francisco de Sales, com o amor se alcançam todas as graças.

Se a nossa alma está em grande aridez, basta dizermos:

Meu Deus, socorrei-me. Senhor, tende compaixão de mim. Meu Jesus, misericórdia!

Ainda que nada mais fizéssemos, a oração seria excelente.

3º Pelas Resoluções

Antes de se terminar a oração, cumpre tomar alguma resolução, não geral, como por exemplo evitar toda falta deliberada, de se dar todo a Deus, mas particular, como por exemplo evitar com mais cuidado tal defeito, em que se caia mais vezes, ou praticar melhor tal virtude em que a alma procurará exercer-se mais vezes: como seja, aturar o gênio de tal pessoa, obedecer mais exatamente a tal superior ou a regra, mortificar-se mais frequentemente em tal ponto, etc. Nunca terminemos a nossa oração sem havermos formado uma resolução particular.