Meios para se Preparar para a Morte – Meditação Alternativa

Meios para se Preparar para a Morte

Quodcumque facere potest manus tua, instanter operare; quia nec opus nec ratio… erunt apud inferos quo tu properas — “Obra com presteza tudo quanto pode fazer a tua mão; porque, na sepultura, para onde te encaminhas, não haverá obra nem razão” (Ecl 9, 10)

Sumário. Meu irmão, já que é certo que deves morrer, coloca-te aos pés de Jesus crucificado, e prepara as contas para esse grande dia. Quanto ao passado, sendo preciso, faze uma boa confissão geral. Quanto ao futuro, emprega os meios apropriados para te sustentar na graça de Deus. Estes meios são: a missa todos os dias, a meditação das verdades eternas, o exame de consciência todas as noites, a frequência dos sacramentos e sobretudo alguma devoção especial a Maria Santíssima. Fazendo assim, terás um certo penhor da tua predestinação.

I. Eia, meu irmão, já que é certo que deves morrer, lança-te aos pés de Jesus crucificado, agradece-lhe o tempo que, na sua misericórdia, te dá para poderes regular a consciência, e depois passa revista a todas as desordens da vida passada, especialmente da mocidade. Atenta aos preceitos de Deus, examina os empregos exercidos, as sociedades por ti frequentadas; nota as faltas por escrito e faze uma confissão geral de toda a vida, se ainda a não fizeste. Ah! Quanto é útil a confissão geral para regularizar a vida de um cristão! Pensa que são contas a dar para a eternidade, e por consequência faze-as como se agora mesmo tivesses de as apresentar ao Juiz Jesus Cristo. Arranca do teu coração todo o afeto desordenado, todo o ódio; tira todo o escrúpulo com relação ao bem alheio, às reputações lesadas, aos escândalos dados, e resolve-te a evitar todas as ocasiões em que possas perder a Deus. Pensa, enfim, que te parecerá impossível na hora da morte o que te parece agora tão difícil.

O que mais importa é que tomes a resolução de pôr em prática os meios de te sustentares na graça de Deus. Estes meios são: a missa todos os dias, a meditação das verdades eternas, a frequência da confissão e comunhão, ao menos todos os oito dias, a visita cotidiana ao Santíssimo Sacramento e à divina Mãe, a Congregação, a leitura espiritual, o exame de consciência todas as noites, alguma devoção especial a Maria Santíssima, com jejum no sábado. Propõe sobretudo recomendar-te muitas vezes a Deus e à Bem-aventurada Virgem, pela invocação repetida, especialmente nas tentações, dos santíssimos nomes de Jesus e Maria. Tais são os meios que te podem adquirir uma boa morte e a salvação eterna.

Fazendo assim, terás um penhor certo da tua predestinação. Quanto ao passado, tem confiança no sangue de Jesus Cristo, que te dá hoje estas luzes, porque te quer salvo; tem confiança também na intercessão de Maria, que te alcança estas luzes. Com a vida assim regulada, e com esta confiança em Jesus e Maria, quanto a alma é sustentada por Deus, e que força não adquire!

II. Eia, meu irmão, dá-te depressa todo a Deus, que te chama; e começa a gozar dessa paz de que até agora pela tua falta ficaste privado. Que felicidade mais doce pode experimentar uma alma senão a de poder dizer todas as noites ao deitar-se: Se me sucedesse esta noite morrer, morreria, segundo espero, na graça de Deus! Que consolação poder ouvir com tranquilidade o ruído do raio, ver tremer a terra, esperar com resignação a morte, se Deus assim o dispõe.

Ah, meu Senhor, quanto Vos agradeço a luz que me dais! Deixei-Vos tantas vezes, tantas vezes Vos voltei as costas, e não me haveis abandonado. Se me houvésseis abandonado, teria ficado cego, tal como no passado quis ser; ter-me-ia obstinado no pecado e nem vontade teria de deixá-lo nem vontade de Vos amar. Sinto agora uma grande dor de Vos haver ofendido e um grande desejo de estar na vossa graça. Detesto os prazeres malditos que me fizeram perder a vossa amizade. São outras tantas graças que me vêm da vossa mão e me fazem esperar que quereis perdoar e salvar-me.

Já que, apesar de tantos pecados meus, não me haveis abandonado e quereis a minha salvação, eis que me dou todo a Vós, meu Senhor. Pesa-me, sobre todos os males, de Vos ter ofendido e proponho perder antes mil vezes a vida do que a vossa graça. Amo-Vos, meu soberano Bem, amo-Vos, meu Jesus, morto por mim, e espero pelo vosso sangue que não permitireis que ainda me separe de Vós. Não, meu Jesus, não Vos quero mais perder. Quero-Vos amar sempre nesta vida, quero-Vos amar na morte, quero-Vos amar em toda a eternidade. Conservai sempre e aumentai em mim o vosso amor; eu Vo-lo suplico pelos vossos merecimentos. Maria, minha esperança, rogai a Jesus por mim.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Duodécima semana depois de Pentecostes até ao fim do ano Eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 441-443)

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1. Preparação

Na preparação fazem-se três atos:

1º Ato de Fé na presença de Deus, dizendo:

Meu Deus, eu creio que estais aqui presente e Vos adoro com todo o meu afeto

2º Ato de Humildade, por um breve ato de contrição:

Senhor, nesta hora deveria eu estar no inferno por causa dos meus pecados; de todo o coração arrependo de Vos ter ofendido, ó Bondade infinita.

3º Ato de Petição de luzes:

Meu Deus, pelo amor de Jesus e Maria, esclarecei-me nesta meditação, para que tire proveito dela.

Depois:

  • uma Ave Maria à Santíssima Virgem, afim de que nos obtenha esta luz;
  • na mesma intenção um Glória ao Pai a São José, ao Anjo da Guarda e ao nosso Santo Protetor.


Estes atos devem ser feitos com atenção, mas brevemente, depois do que se fará a Meditação.

2. Meditação

Para a Meditação sirvamo-nos sempre de um livro, ao menos no começo, parando nas passagens que mais impressão nos fazem. São Francisco de Sales diz que devemos imitar as abelhas, que se demoram numa flor enquanto acham mel, e voam depois para outra.

Note-se além disto que são três os frutos da meditação: afetos, súplicas e resoluções; nisto é que consiste o proveito da oração mental. Assim, depois de haverdes meditado numa verdade eterna, e Deus ter falado ao vosso coração, é mister que faleis a Deus:

1º Pelos Afetos

Isto é, pelos atos de fé, agradecimento, adoração, louvor, humildade, e sobretudo de amor e de contrição, que é também ato de amor. O amor é como que uma corrente de ouro que une a alma a Deus. Conforme Santo Tomás, todo o ato de amor nos merece mais um grau de glória eterna. Eis aqui exemplos de atos de amor:

Meu Deus, eu Vos amo sobre todas as coisas. Eu Vos amo de todo o meu coração. Fazei-me saber o que é de vosso agrado; quero fazer em tudo a vossa vontade. Regozijo-me por serdes infinitamente feliz.

Para o ato de contrição basta dizer:

Bondade infinita, pesa-me de Vos ter ofendido.

2º Pelas Súplicas

Pedindo a Deus luzes, a humildade ou qualquer outra virtude, uma boa morte, a salvação eterna; mas principalmente o dom do seu santo amor e a santa perseverança, porque, no dizer de São Francisco de Sales, com o amor se alcançam todas as graças.

Se a nossa alma está em grande aridez, basta dizermos:

Meu Deus, socorrei-me. Senhor, tende compaixão de mim. Meu Jesus, misericórdia!

Ainda que nada mais fizéssemos, a oração seria excelente.

3º Pelas Resoluções

Antes de se terminar a oração, cumpre tomar alguma resolução, não geral, como por exemplo evitar toda falta deliberada, de se dar todo a Deus, mas particular, como por exemplo evitar com mais cuidado tal defeito, em que se caia mais vezes, ou praticar melhor tal virtude em que a alma procurará exercer-se mais vezes: como seja, aturar o gênio de tal pessoa, obedecer mais exatamente a tal superior ou a regra, mortificar-se mais frequentemente em tal ponto, etc. Nunca terminemos a nossa oração sem havermos formado uma resolução particular.